Como oficinas de culinária viraram método de pesquisa
Pesquisadoras do INCT Combate à Fome uniram entrevista e oficina de culinária pra estudar insegurança alimentar em duas periferias de SP.
Grajaú, na Zona Sul de São Paulo, e Vila Jacuí, na Zona Leste. Foi nesses dois bairros periféricos que uma equipe decidiu não parar na entrevista. O INCT Combate à Fome é a rede de pesquisa que conduziu o estudo “Comida e Cidade: um estudo sobre a fome e seu enfrentamento em bairros periféricos de São Paulo”, publicado no Jornal da USP em junho. A proposta foi entender a insegurança alimentar e nutricional (IAN) dessas famílias e, a partir do que elas contaram, montar oficinas de culinária em parceria com organizações que já atuam nesses territórios. Se você pesquisa alimentação, saúde pública, território ou extensão, esse desenho de pesquisa vale a pena olhar de perto.
O que aconteceu
A promoção da alimentação adequada e saudável é diretriz de políticas públicas há tempos, presente em documentos como a Política Nacional de Alimentação e Nutrição e o Guia Alimentar para a População Brasileira, sempre com a alimentação tratada como direito. O problema, segundo outras pesquisas citadas no artigo, é que territórios periféricos das grandes cidades brasileiras concentram mais insegurança alimentar, e isso anda junto com menor acesso a alimentos frescos e in natura e maior exposição a ultraprocessados.
Foi nesse contexto que a pesquisa “Comida e Cidade” entrou em campo no Grajaú e na Vila Jacuí, em parceria com o Instituto Anchieta Grajaú (IAG) e o Centro de Recuperação e Educação Nutricional (CREN), organizações que já atuam nesses bairros. A primeira etapa combinou entrevistas em profundidade com questionários individuais: caracterização sociodemográfica, insegurança alimentar, ambiente alimentar do entorno e práticas e habilidades culinárias das famílias.
A partir desse material, a equipe desenhou os Ciclos de Oficinas: espaço de reflexão sobre alimentação e direitos sociais, sobre a relação de cada família com o território onde vive e o ambiente alimentar do entorno, misturando conversa com o preparo de receitas. Cada encontro trabalhou um tema: histórias pessoais e alimentação, redução do consumo de ultraprocessados, temperos naturais e Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). Outros encontros trataram do cuidado com a alimentação infantil, do cuidado como trabalho invisibilizado, do território e do direito à alimentação, e do prazer de comer bem. As receitas escolhidas usavam ingredientes in natura ou minimamente processados, acessíveis e fáceis de reproduzir em casa.
Por que isso importa pra você
As participantes relataram satisfação com os encontros: aprenderam ou aperfeiçoaram habilidades culinárias, se abriram para o prazer de cozinhar e valorizaram o espaço coletivo de troca e convivência. Ao final, as participantes receberam um caderno de memórias afetivas com as receitas dos encontros. Vou te mostrar onde esse desenho de pesquisa toca quem está na pós:
Se você está desenhando sua metodologia
- A pesquisa não usou só entrevista: usou entrevista e questionário pra caracterizar o campo, e só depois construiu a etapa de oficina. Seu projeto já prevê essa segunda etapa, ou ela ficou de fora do cronograma?
- Existe uma organização da sociedade civil atuando no seu território de pesquisa? Se existir, essa pode ser a parceria que muda o desenho do seu campo.
Se você já está em campo
- O produto entregue às participantes (o caderno de receitas) também é uma forma de devolução de dados. A sua pesquisa tem uma versão que a pessoa entrevistada pode levar pra casa?
- Reveja os temas que cada oficina cobriu, do prazer de comer ao trabalho de cuidado invisibilizado: dá pra organizar sua análise qualitativa por um recorte parecido?
Se você orienta
- O desenho aqui separou claramente o momento de escutar (entrevista) do momento de agir junto (oficina). Vale perguntar à sua orientanda em que fase do projeto ela está antes de sugerir que a devolução venha antes da hora.

Por que essa combinação de método me chama atenção
Toda vez que leio um desenho de pesquisa que devolve alguma coisa concreta pra quem foi entrevistado, eu paro pra pensar. Aqui a devolução não ficou pro final do projeto: nasceu dentro do próprio desenho. As oficinas viraram dado (mostraram como as famílias lidam com o preparo dos alimentos no dia a dia) e viraram produto pra quem participou (o caderno de memórias afetivas). Não significa que toda pesquisa qualitativa precisa terminar em oficina de cozinha. Significa perguntar, ainda na fase de projeto: o que a pessoa que você entrevistou leva pra casa depois que você vai embora? Faz sentido parar nisso antes de fechar seu instrumento de coleta.
Próximos passos
Se essa combinação de entrevista com oficina fez sentido pra sua pesquisa, aqui vai um checklist rápido pra levar pro seu projeto:
- Mapeie se existe alguma organização da sociedade civil atuando no seu território de pesquisa antes de fechar o desenho de campo.
- Revise seu cronograma: existe uma etapa de devolução prevista pra quem você entrevista, ou ela ficou implícita?
- Se seu tema é alimentação, nutrição ou saúde pública, procure diretamente as chamadas e parcerias do INCT Combate à Fome.
- Leia a matéria completa no Jornal da USP pra ver os dois cadernos de memórias afetivas com as receitas das oficinas.
Se você quer aprofundar a etapa de entrevista desse tipo de desenho, dá uma olhada em Como analisar entrevistas na pesquisa qualitativa?.
Fonte: Oficinas culinárias, ambientes alimentares e o direito à alimentação, Jornal da USP
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Perguntas frequentes
O que é insegurança alimentar e nutricional (IAN)?
O que é o INCT Combate à Fome?
Pesquisa qualitativa pode combinar entrevista com oficina prática?
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