Mães usam IA como 'coparceira'. Onde estão os pais?
Momfluencers vendem ChatGPT como parceiro que nunca esquece o protetor solar. A ferramenta ajuda, mas não reparte a carga mental que sobra pra elas.
Lilian Schmidt tentou de tudo para fazer a filha dormir: máquina de ruído branco, cortina blackout, massagem. Nada funcionava. Em junho de 2025, ela publicou no TikTok um vídeo com a legenda “Transformei o ChatGPT no meu coparceiro” e ganhou 27 mil seguidores em três semanas. Uma momfluencer de IA é a criadora de conteúdo que ensina outras mães a usar inteligência artificial generativa para organizar a rotina doméstica e dos filhos, e monetiza isso com prompts e consultorias. Se você é pesquisadora e também mãe, essa história provavelmente já te fez pensar: a ferramenta ajuda, mas ela resolve o problema de fato?
O que aconteceu
Segundo a reportagem da Wired, Schmidt é parte de um grupo crescente de mulheres que se apresentam como um novo tipo de “momfluencer”. Não a que usa imagens aspiracionais para tornar o trabalho doméstico mais bonito, mas a que pergunta se aquele trabalho é mesmo necessário na forma como está distribuído hoje.
Ela criou um GPT customizado chamado Coparent e passou a vender acesso por 37 dólares. Outra criadora citada, Sarah Dooley, deixou o emprego de consultora de tecnologia para ensinar mães a usar IA e lançará o livro The AI-Empowered Family no próximo ano.
Um dado da matéria expõe o contexto: pesquisa do Departamento do Trabalho dos EUA de 2022 mostra que mães empregadas gastam 13,5 horas extras por semana em tarefas domésticas e 12,5 horas semanais em cuidado infantil, um aumento de 40% em relação a 1975. Dados do Pew mostram que os pais hoje dedicam mais que o dobro do tempo a essas tarefas comparado a 50 anos atrás, mas a divisão continua desigual.
Por que isso importa pra você
Se você é pesquisadora e mãe, a carga mental não é abstrata: ela compete direto com tempo de escrita, leitura e orientação. A reportagem levanta um ponto que vale trazer para a rotina acadêmica.
- Se você usa IA para organizar tarefas domésticas: pergunte quem mais na sua casa também usa, e para quê. A reportagem descreve o marido da autora usando Claude para pesquisar mercado financeiro, mas nunca para lembrar aniversário ou consulta médica.
- Se você sente que “depender de IA é trapaça”: a especialista Erin Grau chama isso de “culpa materna” na matéria, e é um freio real. Um estudo de 2025 citado no texto aponta que mulheres têm mais de 20% menos chance de usar IA generativa no cotidiano que os homens.
- Se você orienta outras pesquisadoras-mães: vale nomear a diferença entre “otimizar a execução de uma tarefa” e “redistribuir quem é responsável por ela”. São coisas diferentes, e confundi-las empurra a solução de volta para quem já carrega o problema.

O que a ferramenta não resolve
A jornalista que escreveu a matéria testou a IA como parceira de organização doméstica e descreveu o resultado com uma frase que vale destacar: ver a lista de tarefas cotidianas em texto corrido gerou “existential dread”, não alívio. Ela compara a IA à máquina de lavar e ao aspirador de pó, tecnologias que prometiam liberar tempo das mulheres e, na prática, mantiveram a responsabilidade doméstica atrelada a elas, só que com uma ferramenta mais rápida.
Isso não é motivo para descartar a IA como apoio de organização, no trabalho ou em casa. É motivo para não confundir “a tarefa ficou mais rápida” com “a responsabilidade foi dividida”. Stephanie Leblanc-Godfrey, fundadora da Mother AI e citada na matéria como “tecnóloga materna”, resume: “essas ferramentas foram construídas para pessoas com tempo livre. E adivinha? Mães não têm nenhum.”
O ponto que essa reportagem não resolve
Quando li essa matéria, o que me incomodou não foi a IA em si, é a moldura em que ela chega até as mulheres. Mel Robbins e Reese Witherspoon, citadas na reportagem, apresentam o uso de IA como uma forma de “empoderamento feminino”. Leblanc-Godfrey rebate isso de frente: usar a insegurança da mulher, ou rotular a IA como “feminista”, como porta de entrada, já é perder o ponto.
Faz sentido? A pergunta que a matéria faz e não responde de todo é por que o ônus de aprender a ferramenta caiu sobre as mães, e não sobre quem também mora na mesma casa. Schmidt conta que 95% da audiência dela é feminina, e os poucos pais que escrevem preferem mensagem privada a comentário público. Ela chama isso, em tom de brincadeira só até certo ponto, de “o patriarcado”.
Não significa que você deva abandonar ferramenta nenhuma. Significa perguntar, antes de adotar qualquer atalho de organização, se ele está aliviando a carga ou só tornando mais eficiente uma divisão que já era injusta.
Próximos passos
- Se você usa IA para dar conta da rotina doméstica e acadêmica ao mesmo tempo, mapeie por uma semana quais tarefas são só suas versus compartilhadas antes de decidir onde a ferramenta realmente ajuda.
- Converse com quem mora com você sobre carga mental como conceito, não como reclamação pontual. A matéria mostra que muitos homens sequer conhecem o termo.
- Separe, no seu uso de IA, o que é “fazer mais rápido” do que é “fazer sozinha”. São perguntas diferentes, e só a segunda muda a distribuição real do trabalho.
Se você quer entender melhor os limites e os vieses embutidos nas ferramentas de IA que usamos no dia a dia, vale ler Chatbots caem sempre nas mesmas respostas. Por que isso.
Fonte: Momfluencers Are Pitching AI as a Better Coparent Than Men, Wired
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Perguntas frequentes
O que é uma 'momfluencer de IA'?
Por que as mulheres usam menos IA generativa que os homens?
IA resolve a desigualdade na divisão de tarefas domésticas?
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