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Por que 28 editores abandonaram uma revista de uma vez

Todo o conselho de uma revista da Springer Nature pediu demissão contra a pressão por publicar mais. Veja o que isso muda pra quem submete artigo.

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Vinte e oito editores de uma revista acadêmica pediram demissão no mesmo mês. Não foi briga pessoal nem falta de verba: foi um impasse sobre quantos artigos a revista deveria publicar por ano. A renúncia em massa é uma decisão coletiva em que todo o corpo editorial de um periódico abandona o cargo de uma vez, quase sempre em protesto. E quando ela acontece numa das grandes editoras do mundo, vale prestar atenção, porque diz muito sobre o terreno onde você vai depositar o seu próximo artigo.

O que aconteceu

Em abril, os 28 editores da Natural Language Semantics, uma revista de linguística que pertence à Springer Nature, renunciaram em bloco. Segundo a editora-chefe Amy Rose Deal, professora da Universidade da Califórnia em Berkeley, a empresa deu um ultimato: aumentar em cerca de 25% o número de artigos publicados por ano ou ver a revista “fundida” com outro título do grupo. A revista vinha publicando, em média, 12 artigos por ano na última década.

Para os editores, “fusão” era um eufemismo para o fim da revista. Em vez de aceitar, eles fundaram um novo periódico, a Semantics of Natural Languages, agora pela Open Library of Humanities, uma editora de acesso aberto que diz querer “libertar a pesquisa universitária do controle comercial”. Quase todo o conselho antigo migrou junto. Esta foi a quarta renúncia em massa registrada pela Retraction Watch só neste ano, e se soma a mais de 50 outras em uma lista que a publicação mantém.

É importante ouvir os dois lados. A Springer Nature afirmou que a decisão de fechar a revista “seguiu uma análise cuidadosa e minuciosa ao longo de vários meses” e não teve relação com as renúncias. A empresa não respondeu à pergunta sobre a cobrança por aumento no ritmo de publicação. Do outro lado, Deal foi direta: “Acreditamos no acesso aberto de verdade, que editoras com fins lucrativos como a Springer não estão dispostas ou não conseguem oferecer.” Mas o que esse racha tem a ver com a sua bancada de trabalho?

Por que isso importa pra você

Pode parecer uma disputa distante, de gente grande lá fora. Não é. As mesmas editoras comerciais publicam boa parte das revistas de impacto onde a ciência brasileira submete. A lógica que pressionou esses editores é a mesma que molda onde e como você publica.

Se você está montando o seu primeiro artigo

  • O prestígio de uma revista não conta a história toda. Vale olhar quem é a editora, qual o modelo de cobrança e como está a reputação atual do periódico.
  • Revistas sob pressão por volume podem acelerar revisões e baixar o cuidado com o seu texto.

Se você publica com frequência

  • Acompanhar listas de renúncia em massa ajuda a saber quais títulos estão instáveis antes de mandar meses de trabalho pra lá.
  • O acesso aberto amplia o alcance, mas a taxa de publicação costuma recair sobre você. Inclua esse custo no seu planejamento de fomento.

Se você orienta

  • Conversar sobre economia da publicação com seus orientandos evita que eles escolham revista só pelo nome e se frustrem depois.

O ponto não é demonizar editora nenhuma. É entender que existe um mercado por trás do selo de qualidade, e que esse mercado afeta o destino do seu trabalho.

O que olhar antes de mandar seu artigo pra uma revista

Aqui a coisa vira método. Escolher periódico no susto, perto do prazo, é receita pra desk rejection ou pra cair num título problemático. O Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) que ensino trata exatamente disso: decidir com critério em vez de no impulso. Antes de submeter, vale checar alguns pontos:

  1. Quem é a editora e qual o histórico recente do periódico.
  2. O escopo da revista bate de verdade com o seu objeto, ou você está forçando a barra.
  3. Se há taxa de publicação e quanto, para entrar no seu orçamento de bolsa ou projeto.
  4. O tempo médio de revisão, para não esbarrar num prazo de defesa.
  5. Se a revista aparece em alguma lista de instabilidade ou renúncia recente.

Não é burocracia. É proteger meses do seu esforço de uma escolha apressada.

Por que escolher a revista virou decisão estratégica

Quando li essa notícia, o que mais me marcou não foi a briga em si, foi a coragem dos editores de recomeçar do zero por um princípio. Eles abriram mão de um nome consolidado para não comprometer o cuidado com a ciência. Isso diz muito sobre o momento que a publicação acadêmica vive.

Por um lado, é desconfortável perceber que a revista dos seus sonhos pode estar dentro de uma engrenagem que valoriza quantidade. Por outro, é libertador entender que você tem escolha. Submeter virou decisão estratégica, não só uma corrida atrás do periódico mais famoso. Não significa que você precisa virar ativista do acesso aberto amanhã. Significa que vale publicar com os olhos abertos, sabendo onde está pisando e por quê.

Próximos passos

Se esse assunto te pegou, comece por aqui ainda esta semana:

  1. Liste as três revistas que você pretende submeter no próximo ano e pesquise editora, taxa e tempo de revisão de cada uma.
  2. Converse com o seu orientador sobre o modelo de acesso aberto na sua área e quem costuma bancar a taxa.
  3. Guarde uma cópia da carta aberta dos editores como exemplo de como argumentar por princípios na academia.
  4. Antes da próxima submissão, rode a checklist da seção acima em vez de decidir no impulso.

E se você quer estruturar a escrita e a submissão do seu artigo com método, em vez de no desespero do prazo, conheça o Método V.O.E. e como ele organiza cada etapa da sua produção.

Fonte: Editors of semantics journal resign, launch new journal after publisher ‘ultimatum’, Retraction Watch

Perguntas frequentes

O que é uma renúncia em massa de editores?
É quando todo o corpo editorial de uma revista pede demissão de uma vez, geralmente em protesto contra políticas da editora. Quando isso acontece, os editores costumam fundar uma nova revista para continuar o trabalho fora do controle comercial.
O que é acesso aberto e por que importa?
Acesso aberto é o modelo em que qualquer pessoa pode ler o artigo de graça, sem assinatura. Importa porque amplia o alcance da sua pesquisa, mas o custo muitas vezes recai sobre o autor, na forma de taxas de publicação cobradas pela revista.
Isso afeta quem está publicando no Brasil?
Sim. As mesmas editoras comerciais publicam boa parte das revistas de impacto onde pesquisadores brasileiros submetem. Entender a lógica de volume e taxa ajuda a escolher periódicos com critério e a não tratar prestígio como único filtro.

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