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Só 1,2% dos doutores brasileiros mora no exterior, mostra o

Levantamento cruzou dados da Capes com a Receita Federal e desmontou o medo generalizado de fuga de cérebros: quase todo doutor formado no Brasil entre

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Você já se perguntou se terminar o doutorado no Brasil significa, quase inevitavelmente, fazer as malas depois? Um levantamento do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgado em maio cruzou dados da Capes com a Receita Federal e chegou a um número que contraria o senso comum: apenas 1,2% dos 254,9 mil doutores titulados em instituições brasileiras entre 2013 e 2024 tinha residência fora do país em março de 2025. Fuga de cérebros é o termo usado desde os anos 1960 para descrever a perda de profissionais altamente qualificados para países com melhores oportunidades de trabalho. Se você está terminando o doutorado agora, ou pensando em sair, esse número muda o tamanho real do fenômeno que você imagina estar vivendo.

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O que o Ipea encontrou

O economista Daniel Gama e Colombo, coordenador de métodos e dados do Ipea, levantou os nomes de todos os doutores titulados no país na última década usando a base da Capes e depois verificou onde essas pessoas residem por meio do CPF na Receita Federal. Esse cruzamento é raro: a maioria dos estudos sobre emigração de pesquisadores no Brasil trabalha com estimativas ou pesquisas de opinião, não com registro fiscal de quase 255 mil pessoas.

O resultado foi 3.145 doutores emigrados, distribuídos principalmente entre Estados Unidos (20%), Colômbia (8,9%), Alemanha (7,9%), Canadá (7,7%) e França (5,4%). Um dado chama atenção dentro desse grupo: quase um terço (972 pessoas) era formado por estrangeiros que vieram estudar no Brasil, e a maior parte deles (904) simplesmente voltou para o país de origem depois de titulada, principalmente Colômbia, Peru e Moçambique. Não é fuga de cérebros brasileira, é o Brasil funcionando como ponte de formação para outros países da América Latina e da África.

Colombo compara a taxa brasileira com a de outros países: cerca de 13,4% nos Estados Unidos, mais de 20% na Suíça e em torno de 8% no Reino Unido. A comparação direta é imperfeita, já que cada país mede isso de um jeito diferente, mas a distância entre os números é grande o suficiente para sustentar a conclusão central do estudo.

Por que isso importa pra você

Esse dado muda o cálculo de quem está em momentos diferentes da trajetória acadêmica. Vou te mostrar como ele aterrissa em cada situação:

  1. Se você está terminando o doutorado agora: o medo de que sair do Brasil seja raro ou mal visto perde peso estatístico. A maioria não sai, mas quem sai vem, sobretudo, de programas mais bem avaliados.
  2. Se você está pensando em fazer pós-doutorado fora: o estudo mostra que a taxa de emigração aumenta conforme sobe o conceito Capes do programa de origem. Quanto mais alto o conceito do seu programa, maior tende a ser a taxa de emigração, segundo o levantamento.
  3. Se você é orientador ou orientadora: o levantamento reforça uma leitura que Colombo já havia levantado como hipótese: a baixa emigração pode não significar só retenção bem-sucedida, pode também sinalizar dificuldade de inserção internacional de parte dos doutores formados aqui.
  4. Se você está no exterior e pensa em voltar: o CNPq mudou a régua. Confira o quadro abaixo antes de decidir seu próximo passo.
ProgramaO que ofereceQuem pode
Repatriação (CNPq, 2024)Bolsa de R$ 13 mil/mês, até 5 anosDoutores/pós-doutores formados fora a partir de 2019, residentes ou não no Brasil
Apoio a Projetos em RedeFinancia colaboração à distânciaPesquisadores no exterior sem intenção de voltar
Profix Brasil (2025)Mesmas bolsas da repatriação, 4 anos, seleção descentralizada pelas fundações estaduaisDepende do edital de cada estado
Política de Novação (2023)Troca a obrigação de retorno por colaboração científica com instituições brasileirasEx-bolsistas do exterior com pendência de retorno
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O que os números não mostram (e por que isso importa)

Um ponto que a socióloga Ana Maria Carneiro, da Unicamp, levanta merece atenção: o estudo do Ipea olha para todos os doutores formados no Brasil, sem separar quem é brasileiro de quem veio de fora só para estudar. Isso é válido para medir o retorno do investimento público em formação, mas esconde uma nuance importante. O Brasil funciona, ao mesmo tempo, como remetente de estudantes para o Norte global e como receptor de estudantes latino-americanos e africanos que depois voltam para seus países. As duas coisas acontecem juntas, e são fenômenos diferentes.

Há também uma diferença de método entre os dois principais estudos sobre o tema. O do Ipea usa CPF e captura só quem está registrado como residente fora do Brasil em determinado momento. Já o levantamento qualitativo de Carneiro, com apoio da FAPESP, ouviu 1,2 mil pesquisadores em 42 países e achou que mais de 70% não pretendia voltar, número que sobe para 90% entre quem já tem contrato permanente no exterior. Menos da metade desse grupo havia feito doutorado no Brasil. Ou seja: os dois estudos não estão medindo exatamente a mesma coisa, e é por isso que os números parecem, à primeira vista, contradizer um ao outro.

Da minha cadeira de orientadora

Quando li esse levantamento, minha primeira reação foi de alívio, e a segunda foi de cautela. Alívio porque o discurso da fuga de cérebros em massa sempre me pareceu maior do que a realidade que eu vejo nas orientações que acompanho: várias das minhas orientandas querem ficar, querem construir carreira aqui, e sentem que o problema não é vontade de sair, é falta de vaga e de financiamento estável dentro do país.

A cautela vem da hipótese que o próprio Colombo levanta: taxa baixa de emigração pode ser sinal de sucesso na retenção, mas também pode ser sinal de dificuldade de entrar no circuito internacional. As duas leituras cabem nos mesmos números, e não dá para saber qual pesa mais sem outro tipo de dado. Isso não significa que você precisa correr pra internacionalizar seu currículo amanhã. Significa entender que “ficar no Brasil” não é sinônimo automático de “não ter opção de saída”, e que vale a pena construir sua rede internacional mesmo se seu plano é continuar aqui. Rede não é passagem de avião, é colaboração, coautoria, participação em projeto conjunto. Isso o método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) trata como parte da Organização da carreira: mapear redes de pesquisa possíveis é tão estratégico quanto escrever o próximo artigo.

Próximos passos

Se esse tema toca seu momento atual, aqui vai o que vale checar essa semana:

  1. Se você está perto de titular, mapeie o conceito Capes do seu programa e o que isso historicamente indicou sobre inserção internacional de egressos.
  2. Se você pensa em pós-doutorado fora, pesquise o edital de repatriação e o Profix Brasil antes de assumir compromisso de longo prazo no exterior.
  3. Se você tem pendência de retorno com CNPq ou Capes, procure a Política de Novação revisada em 2023: ela trocou multa por colaboração científica, e as aprovações saltaram de 5 para mais de 100 em 2024 e 2025.
  4. Se você orienta, converse com seus orientandos sobre rede internacional como estratégia, não como sinal de que “vão embora”.

Se você está organizando o próximo passo da sua trajetória e quer entender como funcionam as bolsas de fomento hoje, vale ler Como Conseguir Bolsa para Pós-Graduação: Guia Real.

Fonte: Estudo aponta que 1,2% dos doutores que se formaram no Brasil estava fora do país em 2025, Revista Pesquisa FAPESP

Perguntas frequentes

Quantos doutores brasileiros moram no exterior, segundo o Ipea?
O estudo achou 3.145 doutores emigrados entre os 254,9 mil titulados no Brasil de 2013 a 2024, o equivalente a 1,2% do total. Os destinos mais comuns foram Estados Unidos (20%), Colômbia (8,9%), Alemanha (7,9%), Canadá (7,7%) e França (5,4%).
O Brasil tem fuga de cérebros?
Os números não sustentam essa narrativa, pelo menos entre quem concluiu o doutorado no país. A taxa de emigração de 1,2% fica bem abaixo da de países como Suíça (mais de 20%), Estados Unidos (13,4%) e Reino Unido (cerca de 8%), segundo o levantamento do Ipea.
Como participar dos editais do CNPq para pesquisadores no exterior?
O programa Conhecimento Brasil do CNPq mantém frentes como o edital de repatriação e o Apoio a Projetos em Rede, voltado a quem quer colaborar com equipes brasileiras sem voltar. O edital Profix Brasil, lançado em 2025, é descentralizado pelas fundações estaduais de pesquisa, que receberam mil bolsas para distribuir.

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